Ontoeta:

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Ontoêta is a Music Project
Born in Portugal in 1995
as the combined work of two brothers:
Artur Moura and João Martinho.


All songs composed by Artur Moura.
Global sound setup, synth and multimedia by João Martinho Moura.


A ll songs are copyrighted by S.P.A.
(Sociedade Portuguesa de Autores) worldwide.


contact: info@ontoeta.com






Entrevista ao Diário Correio do Minho (22 Junho 2008)

Filosofia e música, poesia, internet e artes digitais. Estes são elementos com que os irmãos Artur e João Martinho Moura produzem e expõem na internet o projecto “Ontoêta”. Aquela palavra, inédita, pretende num só conceito sintetizar “ontologia” e “poeta”.

Texto: RUI SERAPICOS

“Ontoêta”, filosofia e artes digitais

A palavra “Ontoêta” advém segundo os próprios criadores dos conceitos ontologia e poesia (ou a ontologia do poeta – aquele que busca, pelas palavras, som ou qualquer outra manifestação recreativa, a expressão do ser). Ontoêta não se resume a uma vertente sonora, mas pretende ser um projecto intelectual, encarando a expressão musical não como uma mera expressão de entretenimento ou sensualidade, mas, sim, como uma procura de expressão de um significado. Os elementos constituintes do projecto são Artur Moura e João Martinho Moura. O primeiro é licenciado em Filosofia e pós-graduado em Ética e Filosofia Política, encontrando-se de momento a elaborar uma tese de Mestrado sobre o pensamento estético-político de Kant na Critica Faculdade Julgar - Universidade do Minho em Braga. Possui um espaço de expressão intelectual na internet – em que se ocupa das vertentes filosofia e música ( HIPERLINK “http://www.arturmoura.com/” www.arturmoura.com). O segundo é licenciado em informática, é designer multimédia e encontra-se a realizar um Mestrado em Tecnologia e Arte Digital na Universidade do Minho. Não se trata de um projecto com fins lucrativos ou comercias, mas sim puramente reflexivos. As referências/influênciass são muitas – naturalmente e tendo em conta as formações dos dois elementos - começando pela música sacra, passando por Bach, Chopin, Heiden, Bethoven ou, e mais contemporâneo, a sonoridade experimental de Aphex Twin. Ontoêta tem uma preocupação hermenêutica e, como tal, é um projecto que funciona como crítica de um certo pós-modernismo relativista e niilista. Mas é também, e ao mesmo tempo - mesmo que aparentemente de forma paradoxal - um projecto que se assume como resultado da cultura pós-moderna, tendo sempre presente a subjacente crítica ao estrelato mediatizado, mas também a continuidade da própria perda da noção de referência. Como projecto experimental, não procura fixar-se em conceitos estanques, conceitos estes que, e segundo a visão dos elementos, poderão encontrar-se gastos. Tais conceitos situam-se na própria expressão ou nomenclaturas atribuídas à expressão musical actual, como são o rock, o pop, o jazz, a electrónica ou a música clássica/erudita. A vertente experimental (e, podemos dizê-lo sem prejuízo do termo, de vanguarda), é manifesta na procura da originalidade do som e da composição, mediante o questionamento sonoro que as novas tecnologias possibilitam; e a vertente hermenêutica insere-se na transposição musical que é feita pela leitura filosófica, bem como pela própria experiência existencial dos elementos.

O vosso projecto passa pela página da Internet, ou têm em vista mais algum modo de chegar ao público?

Ontoêta: Essa é uma questão pertinente, a da forma e vontade que o fazedor de som encontra em gerir as emoções que o transportam ao contacto com o outro. A Internet acabou por funcionar como meio privilegiado de liberdade e ausência de compromisso/constrangimento. Naturalmente que poderão existir outros, e que estamos disponíveis a considerar todas as possibilidades... O que nos apraz salientar, ao considerarmos essa mesma gestão, é a da possibilidade crítica e autocrítica que, cremos, deve estar sempre presente no intento criativo. No nosso caso, acreditamos existir um grande nível de complexidade nessa mesma gestão, e que sentimos, muitas vezes, nos ultrapassar. É possível ou não que o tempo resolva isso.

O que acrescenta o vosso projecto à informação na literatura ou na televisão?

Ontoêta: Curiosa essa questão que nos coloca - a da grafia enquanto verbo ingénito - e que apenas peca pelo elevado grau de abrangência. Temos reflectido muito na injunção/relação teoria/música/arte, e mesmo que não lhe consigamos dar uma resposta cabal, a verdade é que acreditamos que a música é um reflexo da própria actividade existencial, e de que esta actividade, naturalmente, não deixa de ser reflexiva. Mas a música é muito mais do que isso, e isto porque faz parte de um grande mistério que é o da existência. Não temos a pretensão de acrescentar o que quer que seja ao enorme e belo mundo da teoria, mas, e isso sim, o de simplesmente lidar com ele com uma certa distância. Se alguma identificação encontramos com o critério de vanguarda, essa identificação passa pela liberdade que lhe subjaz, ou seja, aquela liberdade que, para o ser efectivamente, se recusa a fazer parte de um conceito determinado. Sempre nos agradou a música livre e experimental, aquela música que não se fixa, mas que ao mesmo tempo não deixa de se comprometer com algo. Relativamente à televisão, a verdade é que não vemos muita televisão. Lamentamos, por isso, não lhe dar grandes informações relativas a ela.

Há no Ontoêta alguma corrente filosófica, moral, política?

Ontoêta: Acreditamos que sim, mesmo que possa não ser explícita ou mesmo intencional. A moralidade pressupõe a noção de liberdade, e é claro que podemos sempre questionar a possibilidade efectiva desta mesma liberdade. Pensamos que a música pode dá-nos indícios de que somos seres livres... e, no nosso caso, gostaríamos que essa liberdade fosse comunicável. Mas claro que poderão existir outros sentimentos no âmago do nosso som... sentimentos estes que poderão ser reflexo de uma espécie de estado de alma, e provocado por um mundo que gera grandes contradições, situações de desespero e mesmo tragicidade... e que poderão ser, ou não, (necessariamente) bons ou maus.

Que ideias pretende difundir?

Ontoêta: Não sei se conseguimos responder objectivamente a essa questão. Acreditamos que a nobreza de um criador passa pela vontade que ele sente em educar o outro para a sensibilidade; e, sempre, no sentido de educar-se primeiramente a si próprio. Tal propósito passa, naturalmente, por resistir ao confronto permanente com o neutro, e que é muitas vezes um vazio inconsciente. Naturalmente que esta é uma questão deveras complexa e que não pode ser sintetizada em poucas palavras, mas cremos que não será grande exagero dizer que há de facto algum estado de crise na consciência colectiva, e que o despertar para a arte pode e deve servir à elevação espiritual. Daí a ideia do blog arturmoura.com, e que procura, acima de tudo – e com a humildade que nos deve caracterizar – apelar para algum debate de ideias e sentimentos estéticos. Seja como for, voltamos a insistir na enorme complexidade desta questão.

O projecto "Ontoêta" vai ser sempre como está definido, ou está aberto a evoluções? Pode aceitar novos elementos que se identifiquem convosco?

Ontoêta: Acreditamos que a composição musical, enquanto processo criativo, é necessariamente um momento de solidão. Mas parece-nos igualmente evidente que é também uma espécie de solidão teórica ou linguística, no sentido em que é um momento em que se cruzam sentimentos, que por sua vez são revestidos por palavras, e que estas, por sua vez, são compartilhadas. Isto para lhe dizer que o nosso caminho é já percorrido por todos os contributos que nos foram ‘impostos’ por isto a que designamos vida; e – oxalá que sim – por todos os outros que ainda virão. Estamos por isso abertos a todas as contribuições possíveis.

Recebem reacções ao que têm feito?

Ontoêta: Verdadeiramente, essa é uma questão que não nos preocupa. Agradecemos ao menor interesse demonstrado pelo nosso projecto, bem como todos os incentivos positivos que já nos foram dados.

Dizem que o mundo gera "grandes contradições, situações de desespero e mesmo tragicidade" o vosso projecto propõe respostas, soluções a essas situações?

Ontoêta: Acreditamos que a arte e a filosofia poderão ser de grande utilidade ao ser-humano. Lamentamos o facto de, e só a título de exemplo, disciplinas como a filosofia estejam a ser evacuadas do mapa escolar. Não fosse o facto de sabermos que a reflexão filosófica é, em si mesma, inerente ao ser humano e à sua condição de ser racional, e então estaríamos verdadeiramente preocupados.

O que voz faz parecer que os outros precisem dessa vossa educação "para a sensibilidade"?

Ontoêta: Talvez o facto de acreditarmos que é possível uma educação para a sensibilidade, uma educação da sensibilidade; talvez o facto de acreditarmos no poder do conhecimento, da educação, de uma solução que passe por um aprofundamento ético. É claro que podemos relativizar tudo isto, e assumir essa relativização como uma opção igualmente lídima, ao então associá-la, como hoje parece fazer-se, à modernidade, ao que é moderno. Mas tal opção, de momento, não é merecedora da nossa atenção. Ainda assim, e se nos permite, julgamos que a questão que nos coloca não está convenientemente formulada, na medida em que, aquilo que dissemos foi que acreditamos que a actividade do artista passa por uma vontade que ele sente em educar o outro para a sensibilidade, e educando-se, primeiramente, a si mesmo. Ora, não lhe podemos assegurar que façamos parte desse grupo de seres privilegiados.

Dando respostas de "complexidade" não estão a ser, afinal, vazios de essência? O que pode seduzir às vossas propostas um ser humano comum, que se levanta cedo, trabalha e chega ao fim do dia cansado e saturado também de solicitações, das mais alienadas às de maior elevação social, religiosa ou cultural?

Ontoêta: Essa sua peroração é curiosa, como é de maior interesse, para nós, a questão da “essência”. Será possível um discurso simplificado sobre a palavra “essência”? Um discurso que não seja, necessariamente, complexo? E, por ventura, não será esse um dos pontos menores do nosso mundo pensante, ou seja, o de querermos, a todo o custo, simplificar esse conceito, ou então desconstruí-lo, desmistificando-o e, até, desumanizando-o, como se tudo se resumisse a uma qualquer fórmula ou conceito determinado... e, o que é pior, qualquer coisa de descartável? Relativamente à segunda parte da questão que nos coloca, é certo que ela contem em si o gérmen de alguns problemas teóricos que, como sabe, há muito foram formulados. Problemas como a alienação do trabalho, a liberdade, os condicionalismos sociais, históricos, linguísticos, físicos ou religiosos. Da nossa parte, não achamos que possamos ser ou ter uma solução para o que quer que seja, mesmo que sintamos, de ante-mão, que a expressão artística e filosófica têm em si o melhor código de acesso facilitado à decifração existencial.